Capítulo 1 - Crise do humanismo e redução instrumental do sujeito
- Marcos
- há 2 dias
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A modernidade consolidou o humanismo como horizonte normativo fundamental das instituições políticas, educacionais e clínicas ao afirmar a dignidade da pessoa, a centralidade da autonomia e a legitimidade da liberdade como valores estruturantes da vida social. Essa afirmação representou uma ruptura decisiva com formas históricas de subordinação do indivíduo a ordens metafísicas rígidas ou a sistemas políticos totalizantes. Ao colocar o ser humano no centro da reflexão ética, o humanismo produziu conquistas civilizatórias incontornáveis. Contudo, o desenvolvimento dessa tradição revelou uma ambiguidade estrutural que se tornou progressivamente mais evidente na experiência contemporânea. Ao enfatizar a autonomia, muitas formulações tenderam a absolutizá-la. Ao valorizar a razão, frequentemente a isolaram das dimensões afetivas e inconscientes. Ao defender a liberdade, por vezes a desvincularam das condições históricas e relacionais que tornam a liberdade efetivamente exercível.
O resultado desse processo foi a consolidação de uma imagem antropológica marcada por traços de abstração, segundo a qual o sujeito seria essencialmente transparente a si mesmo e capaz de autodeterminação plena desde que devidamente esclarecido. Essa representação produziu efeitos positivos no campo jurídico e político, porém mostrou-se insuficiente no campo clínico, onde a complexidade psíquica desafia qualquer simplificação racionalista. A experiência cotidiana demonstra que a subjetividade é atravessada por ambivalências, defesas estruturais e zonas de opacidade que não se dissolvem mediante esclarecimento intelectual. A idealização de uma natureza humana harmoniosa revelou-se incapaz de sustentar compreensão adequada da experiência concreta.
Paralelamente a essa idealização, desenvolveu-se uma tendência oposta, caracterizada pela ascensão da racionalidade instrumental como paradigma dominante da organização social. Nesse modelo, o valor das práticas humanas passou a ser medido prioritariamente por critérios de eficiência, previsibilidade e mensuração. A clínica foi progressivamente influenciada por essa lógica, incorporando protocolos padronizados, classificações diagnósticas detalhadas e métricas de eficácia como critérios centrais de legitimidade. O sofrimento foi traduzido em categorias operacionais e a subjetividade passou a ser tratada como conjunto de funções a serem reguladas. Esse movimento trouxe avanços relevantes na sistematização técnica, mas produziu também um efeito colateral significativo, a redução do sujeito àquilo que pode ser descrito e administrado.
Quando o humano é compreendido predominantemente como sistema funcional, a dimensão ética e ontológica tende a ser obscurecida. A pessoa passa a comparecer como portadora de déficit ou de disfunção, e o cuidado aproxima-se de uma lógica de correção. A linguagem clínica corre o risco de se transformar em linguagem de controle. Nessa perspectiva, a singularidade da experiência é frequentemente subordinada à adequação a modelos previamente estabelecidos. O humanismo hospitaleiro surge como resposta crítica a essa dupla insuficiência, a idealização abstrata e a redução instrumental.
Outro aspecto relevante da crise do humanismo manifesta-se na psicologização excessiva da experiência, por meio da qual a interioridade é convertida em projeto individual de autorrealização desvinculado de responsabilidade relacional e compromisso comunitário. O crescimento pessoal passa a ser entendido como expansão contínua da satisfação subjetiva, enquanto a maturidade é confundida com bem-estar emocional permanente. Essa concepção produz tensão constante entre expectativa de desempenho externo e exigência de construção identitária autônoma. A consequência frequente é a intensificação da ansiedade e da fragmentação interna.
A crise contemporânea pode ser descrita também como crise da presença. A aceleração social e a cultura da produtividade contínua dificultam a sustentação de atenção profunda e de escuta prolongada. Processos são comprimidos e conclusões são antecipadas. A prática clínica, quando submetida integralmente a essa lógica, tende a priorizar intervenção rápida em detrimento da elaboração gradual. Contudo, a reorganização psíquica exige tempo interno e estabilidade relacional. A ausência dessas condições fragiliza a possibilidade de integração.
A tensão entre determinismo estrutural e voluntarismo simplificador agrava esse cenário. De um lado, a pessoa é concebida como resultado quase exclusivo de condicionamentos biológicos ou sociais, reduzindo-se a margem de agência. De outro lado, atribui-se responsabilidade total pela própria trajetória, ignorando limitações concretas. Ambas as posições revelam-se insuficientes. A dignidade humana não pode ser fundada nem na ilusão de autonomia irrestrita nem na negação da capacidade de resposta. A condição humana situa-se na intersecção entre condicionamento e liberdade situada, onde permanece uma margem real de decisão.
Diante desse panorama, torna-se evidente a necessidade de uma reformulação ontológica do humanismo. Não basta reafirmar a centralidade da pessoa em termos retóricos. É necessário reconstruir os fundamentos que sustentam tal centralidade. O humanismo hospitaleiro propõe deslocar o eixo da essência abstrata para a relação concreta, reconhecendo que a maturidade emerge em campos relacionais éticos e suficientemente estáveis. A dignidade não decorre de pureza moral nem de eficiência funcional, mas da condição de presença vulnerável capaz de experimentar, desejar e responder.
Essa reconstrução não rejeita o legado humanista, mas o aprofunda ao integrar complexidade psíquica e responsabilidade existencial. A técnica permanece necessária, porém deixa de ocupar posição soberana. O conhecimento especializado conserva relevância, porém é subordinado à qualidade do encontro. A maturidade deixa de ser concebida como revelação de uma essência perfeita e passa a ser compreendida como integração progressiva de dimensões contraditórias sob horizonte ético ampliado.
O humanismo hospitaleiro configura-se, portanto, como resposta à crise contemporânea do humanismo ao afirmar que a dignidade da pessoa precede qualquer enquadramento técnico e que a transformação subjetiva depende de um campo relacional sustentado por presença ética. Essa reformulação inaugura um paradigma no qual o cuidado não se organiza em torno da correção de falhas nem da idealização da natureza humana, mas em torno da possibilidade concreta de maturação quando existem condições adequadas de sustentação. A partir dessa base torna-se possível desenvolver uma clínica que respeite a complexidade da experiência humana sem reduzi-la, e que reafirme a centralidade da pessoa sem recorrer a abstrações idealizantes.
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